Entre os paradoxos diversos que marcam o Rio, está o da sua relação com os outros e o convívio na cidade: o Rio é plataforma justamente celebrada de encontro e diversidade, mas também de apartações e desconfianças mútuas profundas, é icônico pela intensidade e beleza da sua vida nas ruas e nos espaços públicos, mas também pela incivilidade e descuido persistentes no compartilhamento delas.

Beleza e caos, com a missão de dissociá-los, multiplicando a primeira e desfazendo-se do segundo, estando sempre assim entre os chamados fundamentais da cidade. O Rio pode ser mais atento a todos no fazer e viver dos seus espaços – para mulheres, crianças, negros, jovens, LGBTs, idosos, pessoas com deficiência etc. Pode ser mais acolhedor e melhor no respeito ampliado à vida coletiva – do trânsito à gestão de resíduos, da conservação de espaços ao pagamento de tributos. Pode ser mais aberto e voltado à circulação ampla das pessoas em todo o seu território, sem abrir mão da criatividade, espontaneidade e alegria de viver que inegavelmente o definem e fazem belo também.

Mais que isso, pode realizar de forma ainda mais plena essas qualidades ao fazer tudo isso, no cuidado com as pessoas, espaços e recursos naturais, no prazer da vida cotidiana, na vivência da vitalidade cultural, urbana e da natureza que o faz único. Renovar os modos de exercitar e experimentar a vida coletiva precisando estar assim no horizonte comum do Rio para cumprir a promessa de cidade que é e pode ser.